Como lidar com pensamentos ruminantes à noite, segundo psiquiatra

Psiquiatra explica por que sua mente não desliga e como retomar o controle

Aquela sensação de deitar na cama e, ao invés de relaxar, ver a mente mergulhar em uma maratona de pensamentos desconexos, preocupações e lembranças indesejadas, é mais comum do que parece. Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta Lucas Raspall, essa experiência é alimentada por um processo chamado ruminação cognitiva — um ciclo mental persistente que interfere diretamente na qualidade do sono e na saúde emocional.

Raspall, autor do livro Acalmando a Mente, é especialista em saúde mental e parentalidade e tornou-se conhecido também por atender figuras públicas como Antonela Roccuzzo, esposa de Lionel Messi. Ele explica que a ruminação ocorre justamente nos momentos de descanso, quando o cérebro diminui a atividade consciente e abre espaço para conteúdos internos virem à tona.

Por que ruminamos tanto?

A ruminação mental é um movimento contínuo entre pensamentos, memórias, sentimentos e fantasias que se repetem sem solução. Esse fluxo incontrolável pode surgir mesmo diante de situações simples, mas torna-se perigoso quando se estende por horas ou dias, gerando ansiedade, insônia e sensação de esgotamento mental.

Segundo a neurociência, esse estado é promovido pela ativação da chamada “rede padrão” do cérebro, que entra em ação quando não estamos focados em tarefas específicas. Em contraste, quando estamos ativos e atentos, operamos com a “rede executiva”. A chave para controlar a ruminação, então, é fortalecer essa atenção voluntária.

Vivemos mais ansiosos do que as gerações anteriores?

Raspall acredita que sim. A vida moderna exige multitarefas, nos mantém conectados o tempo todo e cria uma sobrecarga de estímulos, principalmente através do celular. “Estamos mais apressados e com um ladrão de tempo na mão, o celular, que nos prende e alimenta a mente ansiosa”, explica.

Além disso, a mente humana não foi feita para focar no que é positivo. O cérebro, por padrão, se concentra em problemas como forma de sobrevivência. Mesmo após uma conquista ou elogio, a mente busca imediatamente o próximo obstáculo. Isso nos torna, naturalmente, mais propensos à ruminação negativa do que à celebração.

Como romper o ciclo de pensamentos ruminantes?

O primeiro passo é reconhecer o processo enquanto ele acontece. Em vez de perceber depois de horas imerso em pensamentos repetitivos, o ideal é desenvolver um estado de atenção que identifique o início da ruminação. A partir daí, é possível treinar a mente para redirecionar o foco e evitar que os pensamentos tomem o controle.

Raspall sugere que a prática da atenção plena, mesmo que de forma simples e adaptada ao cotidiano, pode ser transformadora. Meditar não é apenas sentar em silêncio, mas pode ocorrer durante um banho, uma caminhada ou qualquer atividade que prenda seu foco no presente.

Três passos para acalmar a mente, segundo o especialista:

  1. Entenda sua mente: observe como ela funciona. Não é necessário ser neurocientista, mas sim ser um observador ativo dos próprios padrões mentais.
  2. Treine sua atenção: cultive a capacidade de escolher no que pensar e quando pensar, ao invés de deixar sua mente vagar sem direção.
  3. Administre seus pensamentos: pensar é uma habilidade útil, mas deve ser usada com consciência. Reflita sobre o que vale seu tempo mental e quando é o momento certo para isso.

O impacto da vida digital na mente moderna

O excesso de informações, o consumo rápido de conteúdo e a gratificação instantânea das redes sociais aumentam o estresse mental. Segundo Raspall, pensamos de forma mais acelerada, com menos profundidade e nos distraímos com facilidade. O risco é cair em um ciclo de distração e ansiedade, onde o cérebro nunca encontra descanso.

Reflexão final: não se trata de fugir da mente, mas de treiná-la

Raspall defende que não precisamos nos isolar em montanhas ou fugir para o campo para encontrar paz mental. A ideia não é ignorar os problemas, mas aprender a enfrentá-los com calma, consciência e equilíbrio emocional. A verdadeira serenidade vem de saber onde direcionar sua atenção, entender seus limites e cultivar práticas que promovam bem-estar.

Com informações de La Nación.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *