Modelos Feitas por IA: A Revolução Digital e Seus Efeitos

Modelos feitas por IA estão dominando as campanhas de moda ao redor do mundo. De vitrines virtuais à capa da Vogue, essas figuras hiper-realistas — criadas por inteligência artificial — vêm ganhando espaço acelerado e provocando uma série de reações. Enquanto marcas enxergam vantagens em custo, controle e inovação, profissionais do setor questionam os impactos éticos, criativos e sociais dessa tendência.

Estamos diante de um novo capítulo da moda: um cenário onde a beleza é calculada por algoritmos, o carisma é programado e o toque humano parece cada vez mais dispensável. Mas será que essa evolução representa o progresso — ou um retrocesso disfarçado de inovação?

Neste artigo, exploramos o que são as modelos geradas por IA, como elas funcionam, por que estão conquistando o mercado e por que tanta gente se sente desconfortável com esse avanço.

O Que São Modelos Criadas por Inteligência Artificial?

Modelos por IA são personagens digitais geradas com o auxílio de tecnologias como:

  • Modelagem 3D e renderização
  • Deep learning e machine learning
  • Algoritmos generativos
  • Inteligência artificial generativa (GenAI)

Essas personagens podem ser totalmente fictícias — com rosto, corpo, voz e estilo únicos — ou versões digitais de pessoas reais, usadas em campanhas promocionais.

Elas aparecem em:

  • Catálogos online de marcas de moda
  • Desfiles virtuais e metaverso
  • Redes sociais como influenciadoras
  • Anúncios publicitários em revistas e plataformas digitais
  • Experiências imersivas com realidade aumentada

O mais impressionante é sua aparência hiper-realista: pele perfeita, olhos marcantes, proporções ideais — tudo sob medida para agradar o olhar. E claro, elas nunca têm um “bad hair day”.

Exemplos Reais do Mundo Digital

  • Shudu – Criada pelo fotógrafo britânico Cameron-James Wilson, é considerada a primeira supermodelo digital do mundo.
  • Lil Miquela – Influenciadora com milhões de seguidores, participou de campanhas para Prada, Calvin Klein e Samsung.
  • Imma – Avatar japonesa que mistura moda, arte e cultura pop com uma estética moderna.
  • Zinnia, Noonoouri, Aitana López – Outras influenciadoras digitais que atuam como modelos de campanhas e lifestyle.

Essas figuras não apenas participam do mercado, mas disputam espaço (e cachês) com modelos humanos reais.

Por Que Marcas Estão Apostando em Modelos Digitais?

1. Controle Total da Imagem

Modelos por IA não envelhecem, não adoecem, não mudam de opinião e não se envolvem em polêmicas. Para as marcas, isso significa previsibilidade e segurança. É possível controlar 100% do comportamento da personagem — da roupa ao tom da legenda no Instagram.

2. Economia de Custos

Com IA, marcas economizam em:

  • Transporte e hospedagem
  • Equipe de produção
  • Locação de estúdios
  • Cacherês

Campanhas podem ser produzidas 100% digitalmente, em qualquer lugar do mundo — ou fora dele.

3. Flexibilidade Estética

Um mesmo avatar pode ser loira hoje, ruiva amanhã. Pode usar trajes tradicionais japoneses em um dia e um look futurista no outro. Tudo depende da direção criativa e da segmentação de público.

4. Conexão com o Público Jovem

As gerações Z e Alpha cresceram com avatares, games, TikTok e metaverso. Para elas, a interação com personagens virtuais é tão natural quanto com humanos. Modelos feitas por IA falam a linguagem desses públicos — e isso vende.

5. Imagem de Inovação e Sustentabilidade

Usar IA passa a mensagem de modernidade. Algumas marcas também argumentam que as campanhas digitais são mais sustentáveis, evitando desperdício de tecidos, viagens e uso de materiais físicos.

Vogue e Guess: A Polêmica que Expos a Tensão no Setor

Em agosto de 2025, a revista Vogue — referência máxima da moda global — publicou pela primeira vez um anúncio com uma modelo gerada inteiramente por IA. A campanha da Guess estampava uma mulher loira, magra, de olhos claros, com aparência de boneca Barbie.

Pequeno aviso nas imagens: “Produzido por IA pela agência Seraphinne Vallora”. Mas a repercussão foi enorme — e nada positiva.

Críticas de todos os lados

  • Modelos profissionais se sentiram ameaçadas e desvalorizadas.
  • Sindicatos, como o Model Alliance, denunciaram o uso como “exploração barata”.
  • Ativistas de diversidade apontaram a repetição de estereótipos (mulher branca, magra e padrão).

A modelo plus size Felicity Hayward chamou a campanha de “preguiçosa e desanimadora”, afirmando que a moda está usando IA como forma de excluir corpos reais em nome da estética padronizada.

O Lado Obscuro da Perfeição Digital

Se por um lado a IA promete inovação e eficiência, por outro levanta alertas sérios:

1. Substituição de Profissionais Humanos

Ao escolher modelos digitais, as marcas deixam de contratar:

  • Modelos reais
  • Maquiadores
  • Cabeleireiros
  • Fotógrafos
  • Diretores de arte

Isso representa perda de renda, visibilidade e espaço criativo para milhares de profissionais da indústria.

2. Padronização Irreal da Beleza

Muitas modelos por IA seguem um padrão eurocêntrico e inatingível de beleza. Mesmo quando criadas para parecer “diversas”, essas representações ainda são controladas por filtros e tendências superficiais.

A diversidade artificial pode acabar mascarando a real exclusão de corpos e vozes diferentes.

3. Apropriação Cultural

Há casos de modelos digitais que “imitam” traços étnicos, estilos e culturas sem ter vivência ou respeito por essas tradições — o que levanta acusações de apropriação cultural.

4. Desumanização da Moda

Moda não é só roupa bonita — é cultura, arte, expressão. Ao transformar tudo em código e pixels, perde-se parte do calor humano que torna esse mercado único.

A Visão dos Especialistas

Segundo a pesquisadora Olivia Merquior, CEO da empresa Iara (focada em inovação na moda), o uso da IA precisa ser feito com inteligência criativa e responsabilidade ética.

Ela ressalta:

“O que torna a IA negativa é a tentativa de lucrar ao máximo, cortando toda a cadeia criativa. A moda é feita por pessoas e para pessoas. Não dá para eliminar isso do processo.”

Olivia cita como bom exemplo o artista Refik Anadol, que usou IA para criar uma instalação imersiva para a Bvlgari. Ali, a tecnologia foi usada como ferramenta artística, não como substituta da criatividade humana.

Existe Espaço para Convivência?

A boa notícia é que o cenário não precisa ser de exclusão, mas de integração. Algumas possibilidades incluem:

  • Campanhas híbridas, com interação entre modelos reais e digitais
  • Provadores virtuais, com uso de IA para simulações, sem substituir a experiência real
  • Personalização de conteúdo com ajuda de IA, mas mantendo rostos humanos à frente
  • Cocriação entre influenciadores e avatares, como já acontece no Japão e na Coreia do Sul

O termo da vez é phygital — uma fusão do físico com o digital. A moda do futuro pode (e deve) unir o melhor dos dois mundos.

O Papel do Público na Transformação

Nós, consumidores, temos um papel essencial neste debate. Nossas escolhas afetam diretamente o rumo da indústria.

O que podemos fazer?

  • Exigir transparência: peça que marcas deixem claro quando usam IA.
  • Apoiar diversidade real: escolha marcas que valorizam modelos humanos diversos.
  • Questionar padrões de beleza: não se compare com personagens digitais.
  • Valorizar o trabalho humano: reconheça a importância de quem faz a moda com emoção e suor.

Considerações Finais: Humanos Ainda São Essenciais

Modelos feitas por IA ganham cada vez mais espaço no mundo da moda. É um caminho sem volta? Muito provavelmente. Mas isso não significa que os profissionais reais perderão sua relevância.

O toque humano — com sua imperfeição, espontaneidade, empatia e bagagem cultural — é insubstituível. A IA pode complementar, expandir e enriquecer o universo da moda. Mas jamais substituir completamente o que é genuinamente humano.

A moda deve evoluir com ética, equilíbrio e inclusão. Que o brilho dos pixels nunca apague a luz das pessoas.

Com informações de G1.

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